Entrevista

Fotografia do estúdio.
Fotografia do estúdio.

Filipe Massena

«A arquitetura deve contar uma história»

Entrevista a Filipe Massena, arquiteto e diretor criativo do Filipe Massena Studio. Formado em Arquitetura pela Escola Superior Artística do Porto (ESAP, 2006), é membro da Ordem dos Arquitectos e do Colegio Oficial de Arquitectos de Madrid (COAM). Com uma carreira internacional, desenvolve projetos de arquitetura, reabilitação e interiores em Portugal, Espanha e noutros países.

Porque considera tão importante que um espaço conte uma história?

Porque um espaço pode ser bonito sem ser memorável. Interessa-me criar lugares com personalidade, capazes de transmitir emoções.

Cada projeto deve ter a sua própria narrativa, inspirada na cultura, na história, no cliente ou na natureza do lugar. A arquitetura, os materiais e os detalhes fazem parte dessa história.

Não se trata apenas de desenhar espaços, mas de criar experiências que fiquem na memória.

O que torna um hotel, um restaurante ou um espaço de bem-estar realmente especial?

A sua identidade. Hoje as pessoas procuram muito mais do que conforto ou um bom serviço: procuram viver experiências diferentes.

A arquitetura e os interiores têm um papel fundamental nessa experiência. Do hotel boutique ao seu restaurante ou spa, cada espaço deve ter personalidade, uma narrativa coerente e elementos que o tornem reconhecível e memorável.

Qual é o erro mais frequente no início de uma obra ou de um investimento imobiliário?

Começar sem ter estudado a fundo o imóvel e as suas possibilidades.

Antes de comprar, reabilitar ou construir, é fundamental analisar a viabilidade técnica, urbanística e económica. Um bom planeamento evita erros, derrapagens de custos e decisões difíceis de corrigir.

Uma boa arquitetura pode aumentar o valor de um imóvel?

Sem dúvida. Uma distribuição inteligente, boa iluminação, materiais bem escolhidos e uma identidade arquitetónica própria podem transformar por completo um imóvel.

Mas o projeto também tem de responder a uma lógica económica. Investir mais nem sempre significa obter um melhor resultado.

O que o atrai na reabilitação de edifícios antigos?

A possibilidade de lhes dar uma nova vida sem que percam a sua identidade.

Interessa-me preservar a memória, os materiais e as proporções originais e acrescentar-lhes uma arquitetura contemporânea. Do equilíbrio entre o antigo e o novo podem nascer espaços únicos.

O luxo deve ser discreto ou pode ser espetacular?

Pode ser as duas coisas. Para alguns clientes, o luxo é privacidade, silêncio e materiais naturais; para outros, espaços imponentes, peças icónicas e grandes marcas de design.

O meu trabalho é interpretar a personalidade e as aspirações de cada cliente e traduzi-las em espaços com identidade própria: materiais excecionais, detalhes feitos à medida e uma relação clara com o lugar.

O verdadeiro luxo é viver num espaço único, pensado para nós.

A inteligência artificial está a mudar a arquitetura?

Sim, sobretudo na forma de explorar e comunicar ideias.

No estúdio usamo-la como ferramenta, nunca como autora. Não substitui a sensibilidade, o conhecimento técnico nem a experiência do arquiteto. Uma imagem espetacular não significa que por trás exista um bom projeto.

Que importância tem acompanhar um projeto até ao fim da obra?

É fundamental. Um projeto não termina quando se entrega um conjunto de desenhos.

No estúdio acompanhamos todo o processo, do conceito e do licenciamento à execução e à entrega, com equipas dedicadas também fora de Portugal e Espanha. É a melhor forma de garantir que a ideia inicial se traduz num resultado construído com qualidade.

Que tipo de projetos lhe interessa desenvolver nos próximos anos?

Projetos que nos permitam explorar novas formas de habitar e de viver os espaços.

O nosso foco são os hotéis boutique e as residências singulares, das villas privadas aos conjuntos residenciais, e tudo o que faz parte dessa experiência: restaurantes, espaços de bem-estar e zonas comuns.

O que realmente me motiva são os projetos com carácter, onde a arquitetura, os interiores e a experiência formam uma única história.

Criar lugares que as pessoas não queiram apenas visitar ou habitar, mas que recordem.